Cresci numa vila que podia parecer aldeia mas não o era. Tinha amigas que nas férias iam para os avós da aldeia. Eu, que vivia na mesma casa que uns avós e tinha os outros avós a menos de cinco minutos, pensava como seria bom ir para a aldeia. Ter uma aldeia, ser de uma aldeia. Quis o destino que a aldeia de Água Revés aparecesse na minha vida. O gosto pela aldeia deve ter sido algo genético- o meu sogro sonhava com o regresso à aldeia depois de uma vida feita de idas e regre ssos temporários, que passou de pais para filho e para as netas. E se calhar às vezes a genética e o coração conjugam-se, porque eu aprendi a gostar muito da paz, da natureza em estado puro, das pessoas que nem sequer nos conhecem bem e contudo são simpáticas e generosas, das surpresas escondidas em cada ida ao campo, como se houvesse sempre novidades à espera, do cheiro da aldeia, do ar que parece inchar os pulmões, do céu cheio de estrelas, do frio que enregela, do calor de fazer inveja a Mefistófe...