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Recordações de outros domingos

Há muitos anos os domingos à tarde acabavam à mesa, com chá e torradas da Dona S., generosamente barradas com planta. Era pirâmides de torradas, como se o pão de toda a semana se tivesse juntado para o lanche de domingo. O lanche era acompanhado pelas histórias animadas do Sr. L., dono de uma memória prodigiosa e de um sentido de humor peculiar. Às vezes éramos mais à mesa, e aproveitávamos para uma partida de cartas, com o MacGuiver a protagonizar prodigiosos salvamentos ou com o Kit, o carro que ía falando com o seu amigo justiceiro. Foi assim durante anos a fio, até que a vida quis que passássemos a ser família e os lanches fossem substituídos por um telefonema à noite e quase duas horas de distância. A aldeia era um projeto em banho maria para o casal, e ainda bem que puderam viver o sonho enquanto a saúde e a vida permitiram. Já lá vão mais de 20 anos mas volta e meia a memória lá se lembra do chá e das torradas. E sobretudo das conversas, que começavam geralmente com um "ent...

Praia de Miradeses

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Miradeses foi a praia para onde fui no verão passado. Sossegado, resguardado, permite para levar o canito, de vez em quando vem um trator e atravessa o riacho de águas límpidas onde se podem ver cardumes de pequeninos seres que volta e meia picam os pés (não cheguei a perceber se são daqueles peixes esteticistas), tem alguma afluência poliglota (como acontece com todo o país no mês de Agosto), dá para refrescar num verão transmontano que faz jus ao ditado "seis meses de inverno e seis de inferno"- no que às temperaturas diz respeito. Faz-se praia literalmente no leito do rio, que no verão fica a descoberto- nesta foto do Público está coberto por água. Na semana passada passei por lá, as águas corriam rápidas, mas o que me surpreendeu mais foi um enorme rebanho que atravessava a ponte sobre o rio. Ocupava literalmente a ponte toda (e ela não é pequena). Ah, e sim, às vezes o rebanho também vai à praia... Praia de Miradeses no Público
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  Primeiro sente-se esperança, pensa-se positivo, acredita-se que será por pouco tempo. Alega-se que quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. Depois trabalha-se muito, faz-se por aparecer, por manter contactos, por procurar novas vias porque as oportunidades constroem-se. Tem-se saudades dos colegas, dos amigos, das rotinas, do telefone sempre a tocar. É como um divórcio involuntário, quer-se saber como as coisas estão com o outro lado, sentindo-se de antemão que tudo o que se vai ouvir saberá a descontentamento, a um "estar à margem". Luta-se muito para se manter a sanidade. Faz-se exercício, cuida-se da alimentação, ocupa-se o tempo a fazer de motorista, ao volante ou no ipad, aspira-se a casa muitas vezes, leva-se o cão à rua. O desemprego não é uma corrida de cem metros. O desemprego é uma maratona. Uma maratona de currículos enviados, de entrevistas que acendem esperanças, de recusas que chegam, de respostas que ficam por dar. Um somatório de "ficará pa...

Dia do pai

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Ao meu pai, de quem herdei (dizem as más línguas) parte do feitio (houve um tempo em que me podia dar ao luxo de ter mau feitio, agora acho que estou mais docinha... digo eu, que sou suspeita) a miopia, o cabelo louro, mas também o acreditar nos jovens e no ideal de tentarmos deixar o mundo melhor do que o encontramos. Ao meu sogro, a quem nunca chamei pai mas de quem gostava como se o fosse, e de quem inevitavelmente me lembro, até pela proximidade com a data em que partiu ( fez ontem sete anos). E aquele que eu tornei pai - o pai das minhas filhas, que as mima e as compreende e que alinha em tais brincadeiras que às vezes até me faz pensar que em vez de duas tenho três filhos! Feliz dia do Pai, de S. José, um homem revolucionário e arrojado que aceitou casar com uma mulher mais jovem, grávida por obra do Espírito Santo - dá que pensar, não dá?  

Dia do Pai

Não sei de quem veio a ideia de preparar o dia do pai (e da mãe) nas escolas. Se dantes havia lembranças que se faziam, agora é o dia (ou a semana) do pai ( ou da mãe) na escola. É interessante, é mais uma estratégia para trazer os pais à escola, mas... E os meninos cujos pais estão longe? E aqueles que já não têm pai? Nem vou teorizar, inventar... Basta pensar: será justo lembrar-lhes todos os anos que o pai/mãe partiu? Será justo obriga-los a inventar outra figura que faz de pai? Será assim tão necessário comemorar na escola um dia que se não for todos os dias e se não puder ser para todos os meninos de pouco vale? Será?

Encontro de gerações

O que dizer quando se acompanha um grupo de pouco mais de uma dezena de jovens com a sua professora  a um lar de idosos para uma experiência intergeracional? Como transmitir o que senti ao ver a alegria com que algumas utentes contavam histórias do passado arrancando sorrisos sinceros e gargalhadas sonoras, a forma empenhada como jovens e menos jovens competiam jogando às cartas e ao dominó ou aquele aluno e aquela aluna que aprenderam a fazer malha com as dicas experientes de senhoras simpáticas e cheias de paciência? Foi uma tarde que valeu bem a pena e fez-me gostar de estar num lar. Quem diria...( coisas da Provedoria do Aluno)

Stalini?!?!

Tenho alguns alunos que me chamam Estaline. Ou melhor, Stalini... Já lhes expliquei que não me parece muito adequado, até porque nem sequer tenho tendência para ditadora, mas enfim, neste momento já se batizaram uns aos outros  também. Um é o Hitler, outro Mussolini, e até há um Hirohito. E hoje um deles confessou-me que com esta brincadeira até sabe a matéria. Mas Estaline?!?! Já os avisei: qualquer dia mando-os para o gulag. :)