Havia
um espelho no Paraíso. Estava tapado com um pano.Deus tinha proibido
Adão e Eva de destaparem o espelho. Mas Eva destapou o espelho.
Reconheceu-se imediatamente.Achou-se feiota e entradota. “Não gosto de
mim”, disse de si para si. “Adão não me quer”. Então Deus zangou-se com
Eva. Adão também se reconheceu no espelho. Mas Adão era Narciso que
sabia que era Narciso. Achou imediatamente que no Paraíso fazia falta a
Fundação Adão. Deus acabou com Adão, com Eva e com a treva. Partiu o
espelho ao meio e pôs as duas metades uma em frente da outra, paralelas
uma à outra. E assim deixou o Paraíso num Inferno. (Adília Lopes, in
Irmã Barata, Irmã Batata)
Entre o dizer e o fazer
Sempre gostei de escrever. A par do sono e do sonho, é o melhor meio que encontro para organizar as ideias e, mais do que isso, para me conhecer melhor. O que começou por ser terapia, acabou por se tornar numa necessidade primária, numa forma de me sentir realizada, de manifestar inconformismos ou de encontrar a paz. Contudo, questiono-me se o meu mal não será esse mesmo. Gostar tanto da palavra que acabe por me ficar por ela. Menos palavras, mais ação. Escrevem. Escrevem.Escrevem. Escrevo. E sei que faço alguma coisa, que a consciência devia estar tranquila para aquele que dá o melhor de si, dadas as suas circunstâncias. Mas olho à volta e há sempre tanto por fazer.
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