Não
sabia o nome dele. Sabia que era muito educado, simpático, com duas
filhas ainda pequenas. Falamos algumas vezes. Da última disse-me com
entusiasmo que sentia uma força vinda não sabia de onde. E todo ele
brilhava, apesar dos gestos acusarem as tremuras de um tumor que lhe
crescia no cérebro. Falava sem rodeios do cancro. Dizer o nome do
inimigo é mostrar-lhe que não temos medo dele, parece-me.
Idas e vindas do hospital. Ontem faleceu. E eu saí de casa a pensar que
nem sequer sei o nome dele, que foi meu vizinho durante onze anos. Se
fosse meu amigo do facebook sabia, lembrava-me a consciência irónica que
volta e meia me atazana. Ao regressar a casa vi no vidro de entrada do
prédio a comunicação do falecimento, e respetivas exéquias. Agora já sei
o seu nome. Que descanse em paz.
Entre o dizer e o fazer
Sempre gostei de escrever. A par do sono e do sonho, é o melhor meio que encontro para organizar as ideias e, mais do que isso, para me conhecer melhor. O que começou por ser terapia, acabou por se tornar numa necessidade primária, numa forma de me sentir realizada, de manifestar inconformismos ou de encontrar a paz. Contudo, questiono-me se o meu mal não será esse mesmo. Gostar tanto da palavra que acabe por me ficar por ela. Menos palavras, mais ação. Escrevem. Escrevem.Escrevem. Escrevo. E sei que faço alguma coisa, que a consciência devia estar tranquila para aquele que dá o melhor de si, dadas as suas circunstâncias. Mas olho à volta e há sempre tanto por fazer.
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