Os
infanticídios não são um fenómeno do séc. XXI. Bem vistas as coisas,
temos até ao séc. XVIII (em alguns casos até mais tarde) uma mortalidade
infantil elevadíssima, a que não é alheia a morte provocada
voluntariamente ou por negligência, potenciada pelos parcos cuidados de
higiene e de saúde. Bebés enfaixados, bebés entregues a amas e criados
longe das mães ou deixados na roda. A passagem de bebé
a criança era um instante e o trabalho infantil era comummente aceite. A
criança era um adulto em ponto pequeno. Em época de casamentos
combinados por interesses, o amor conjugal era uma sorte mas o amor
materno/ paterno também o era. Quase um descomprometimento afetivo para
com os filhos que a qualquer momento morriam. Esta situação foi mudando
com o tempo. Vivemos em tempo de direitos. E contudo, pais matam filhos,
filhos matam pais, abandonos generalizados, como se à inexistência dos
afetos sentidos corresponda uma incapacidade mental de agir como é
suposto. Como se explica isto? Já há quem defenda que isso dos pais
gostarem da mesma forma de todos os filhos é um mito. Os pais tem
preferidos. Mas isso também explica que haja quem veja os filhos com o
absoluto desprendimento afetivo? Será que o instinto maternal é, em si,
um mito? Será que se perdeu com o processo de racionalização? E já
agora, o instinto paternal- porque se ouve falar tão pouco dele?
Entre o dizer e o fazer
Sempre gostei de escrever. A par do sono e do sonho, é o melhor meio que encontro para organizar as ideias e, mais do que isso, para me conhecer melhor. O que começou por ser terapia, acabou por se tornar numa necessidade primária, numa forma de me sentir realizada, de manifestar inconformismos ou de encontrar a paz. Contudo, questiono-me se o meu mal não será esse mesmo. Gostar tanto da palavra que acabe por me ficar por ela. Menos palavras, mais ação. Escrevem. Escrevem.Escrevem. Escrevo. E sei que faço alguma coisa, que a consciência devia estar tranquila para aquele que dá o melhor de si, dadas as suas circunstâncias. Mas olho à volta e há sempre tanto por fazer.
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