Estão 23 graus. Agradáveis, soalheiros, mas 23. Na esplanada expõem-se
bronzeados em bikinis que levam a supor que em vez de 23 estão 32. As
pernas não cabem sob as mesas, têm que pousar-se em sítio onde o sol as
veja, em poses que cabem bem na praia mas na esplanada, enfim... Tento
manter o espírito aberto, respeitar que outros tenham vontade de andar a
ostentar o bronze para cima de quem é copo de leite todo o ano. Que uma
esplanada é um sítio como outro qualquer, que há liberdade para alguma
coisa. Sou traída pelo olhar, concluo que tenho que andar de óculos
escuros. Chego ao carro a sentir-me um matusalém. Diz a mais nova :
viste mãe? As sheilas da tua idade?
Entre o dizer e o fazer
Sempre gostei de escrever. A par do sono e do sonho, é o melhor meio que encontro para organizar as ideias e, mais do que isso, para me conhecer melhor. O que começou por ser terapia, acabou por se tornar numa necessidade primária, numa forma de me sentir realizada, de manifestar inconformismos ou de encontrar a paz. Contudo, questiono-me se o meu mal não será esse mesmo. Gostar tanto da palavra que acabe por me ficar por ela. Menos palavras, mais ação. Escrevem. Escrevem.Escrevem. Escrevo. E sei que faço alguma coisa, que a consciência devia estar tranquila para aquele que dá o melhor de si, dadas as suas circunstâncias. Mas olho à volta e há sempre tanto por fazer.
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