Ela queixava-se. Ele chegava ao fim do dia, carregado de bichos que ela
tinha que preparar. Bichos cheios de chumbos. Havia que depenar o que
tinha penas, tirar a pele aos outros, dar a vizinhas ou encher a arca,
porque ele levaria a mal que deitasse fora. Ela odiava. Ele adorava.
Sentia-se o verdadeiro Homem, espingarda certeira, trazendo os troféus
para casa. Já lá vão uns anos. Mas lembro-me do ar dela, a suspirar, à
segunda, depois de uma jornada de domingo à noite, dia de
chacina. Lembro-me sempre que falam da época de caça. Sim, eu já
disparei uns tiros com uma espingarda de pressão de ar. Ficou-me a doer o
ombro, mas até acertava nas latas. Latas. Porque carga de água há
homens que se vestem como se fossem para a guerra, agarram na
espingarda, põem os cães a dieta rigorosa, e vão dar tiros para o ar?
Expliquem-me lá o fascínio pela caça. É que em vez de pombos e lebres,
podiam fazer tiro aos pratos, sempre era mais ecológico...
Entre o dizer e o fazer
Sempre gostei de escrever. A par do sono e do sonho, é o melhor meio que encontro para organizar as ideias e, mais do que isso, para me conhecer melhor. O que começou por ser terapia, acabou por se tornar numa necessidade primária, numa forma de me sentir realizada, de manifestar inconformismos ou de encontrar a paz. Contudo, questiono-me se o meu mal não será esse mesmo. Gostar tanto da palavra que acabe por me ficar por ela. Menos palavras, mais ação. Escrevem. Escrevem.Escrevem. Escrevo. E sei que faço alguma coisa, que a consciência devia estar tranquila para aquele que dá o melhor de si, dadas as suas circunstâncias. Mas olho à volta e há sempre tanto por fazer.
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