Os infanticídios não são um fenómeno do séc. XXI. Bem vistas as coisas, temos até ao séc. XVIII (em alguns casos até mais tarde) uma mortalidade infantil elevadíssima, a que não é alheia a morte provocada voluntariamente ou por negligência, potenciada pelos parcos cuidados de higiene e de saúde. Bebés enfaixados, bebés entregues a amas e criados longe das mães ou deixados na roda. A passagem de be bé a criança era um instante e o trabalho infantil era comummente aceite. A criança era um adulto em ponto pequeno. Em época de casamentos combinados por interesses, o amor conjugal era uma sorte mas o amor materno/ paterno também o era. Quase um descomprometimento afetivo para com os filhos que a qualquer momento morriam. Esta situação foi mudando com o tempo. Vivemos em tempo de direitos. E contudo, pais matam filhos, filhos matam pais, abandonos generalizados, como se à inexistência dos afetos sentidos corresponda uma incapacidade mental de agir como é suposto. Como se expl...
Mensagens
Do ensino
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O primeiro ano em que dei aulas foi o ano em que os alunos deixaram de reprovar por faltas. Por outras palavras, deixou de haver aquela questão das faltas disciplinares servirem para reprovar. O que contribuiu para aumentar a indisciplina e as faltas de respeito para com professores, no dizer de alguns colegas. Aquilo era tudo novo para mim, não tinha ponto de comparação. Estivera fora de uma secundária por quatro anos mas a realidade mudara muito, até porque os meus olhos não eram já só os de aluna mas também de professora. As pessoas já se queixavam, mas de facto ainda havia as reduções por idade/ tempo de serviço, horário letivo (só), com menos horas, redução para quem só lecionasse secundário, etc. Naturalmente que estas coisas se destinavam aos colegas com mais tempo de serviço. Podia dizer que para os miniconcursos ficavam as turmas que sobravam, que quem era da casa não queria, mas estaria a ser injusta. Adorei os meus meninos do Pires de Lima, do Rodrigues, do C...
A propósito da Páscoa
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Gosto do Natal, mas para mim a Páscoa é a essência do cristão. Mais do que o seu nascimento, Jesus destacou-se pela mensagem que transmitiu e que o levou à morte mas também à ressurreição. E aqui começam as contradições: amanhã ouviremos sinos e a mensagem "ressuscitou, aleluia!", ao mesmo tempo que nos dão a beijar uma cruz com Jesus na sua versão humana de mortal. Se calhar é para pensarmos naqueles de quem nos despedimos assim mas relativamente aos quais esperamos a vida eterna. Seja. Preferia uma cruz simples. Adiante. Por cá ainda há a tradição do compasso. Por causa disso a Páscoa há-de cheirar-me sempre à baunilha das amêndoas (que dantes o chocolate era só nos ovos), ao papel tostado do pão de ló e ao feno que à porta dava sinal de querer receber o compasso. No final do dia era esse o cheiro das ruas. Agora, em vez de feno há umas pétalas de rosa, quando as há. E os aromas são outros. Que fique sobretudo aquilo que a Páscoa deve ser: uma hipótese de renascer, de reno...
@Trás-os-Montes
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Ontem, depois das obrigações aquisitivas dos apêndices oculares filiais foi dia de mais uma incursão gastronómico-afetiva ao interior. Começamos por Vila Real, para as miúdas verem os locais onde o pai cresceu e brincou até aos sete anos. D a casa resta o sítio pois houve um incêndio que comeu as paredes da dita. O jardim onde brincava é agora um parque infantil e um campo de jogos. A escola tornou-se num colégio. Mas a vista da Meia Laranja ainda é a mesma, se ignorarmos os prédios... E que vista! Depois fomos para a Quinta da Petisqueira. Espaço acolhedor, equilibrado, cheio de relíquias, e naturalmente a boa mesa típica dos transmontanos. Mais um golpe na dieta... Mas daqueles que valem a pena. Não ficamos aqui, havia que fazer uma surpresa à avó. Estavam 27 graus em Água Revés. Encontramo-la sentada no pelourinho, a fazer o seu "tratamento de beleza", ou seja a apanhar um solzinho. A aldeia estava calma, devia andar tudo por casa...
Miopia e astigmatismo
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Hoje é dia de comprar óculos! Consulta de rotina no oftalmologista trouxe a sentença. Astigmatismo na Bia, miopia e estigmatismo na Su. A genética é tramada, não há nada a fazer. Das muitas coisas que gostava de transmitir-lhes não constava a visão distorcida do mundo. No sentido literal, pelo menos.
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Estava aqui a saborear umas tangerinas e pensei: apesar de não serem propriamente doces, sabem bem porque sabem ao antigamente. Ora aqui está um antigamente que de facto era melhor do que o atual. O sabor das coisas. Do pão cozido no forno a lenha, da carne que não mingava à velocidade da luz na frigideira, das batatas fritas amarelinhas, da fruta que sabia a fruta mesmo que por vezes trouxesse hospedeiro desalojado a contragosto. Dizem que as coisas dantes sabiam melhor porque havia menos. Será. Mas que os sabores se perderam, se plastificaram com tanta massificação é uma realidade. E contudo, por outro lado, sou incapaz de comer galinha caseira. Mas isso é por outras razões.
@ Braga
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Agora que as aulas/reuniões/ relatórios e afins pararam vou poder descansar e fazer uma dieta(zinha) que aqui o michelin anda a insuflar a olhos vistos, pensei. Certo? Não, errado! Ontem fomos passear para Braga. Queria mostrar a Sé às miúdas, e aproveitar para ver a cidade nesta semana santa. Senti-me quase estrangeira, dada a diversidade de línguas que se ouviam nas ruas. Na universidade estava uma exposição interessante sobre os 40 anos de Abril, com capas de jornais da época, e os cartazes comemorativos. Ficou-me uma frase julgo que de Carmona afirmando que a ideia de que a sociedade portuguesa não estava preparada para viver a democracia era um mito. Quarenta anos depois o comentário a esta frase dava uma boa pergunta num teste. Adiante. Ah, o Michelin. Pois almoçamos no Silvas. O sítio em si não tem nada de especial ou típico. Num centro comercial, balcão corrido, em U, no centro o Sr. Silva e funcionários. E aqui começa a desgraça. Ainda estava a sentar-me e já l...