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Falamos de escravatura como uma coisa do passado ou de outras latitudes. Criticamos os que escravizavam, os que submetiam, os homens que compravam outros homens, achando que a cor da pele determinava a humanidade de cada um. Falamos da escravatura como sinal abjecto de uma civilização inferior. Depois, decidimos vidas alheias como se fossem nossas. Podemos condenar os outros ao que não querem, mesmo que pensemos que é para o seu bem? Sujeitar à nossa vontade? Escravo é o que não é livre, ou o que não pode usufruir da sua liberdade, mesmo que a tenha? Escravo porque explorado, porque sobrecarregado, porque sugado até ao último sorriso, à última vontade, à derradeira esperança. Escravo porque desrespeitado na sua maneira de ser. Escravo porque apoucado por quem lhe diz que não se apouque. Escravo porque revoltado diante de outros escravos que se desfazem em sorrisos falsos. Escravo porque é a vida, escravo do trabalho, das modas, dos juízos alheios, dos medos, escravo dos outros e de si...
Chegar ao balcão e ter uma feijoada para degustar, ainda antes de ver a ementa. "Se soubesse que vinha, tinha feito rabanadas"diz o anfitrião, de sorriso sincero e acolhedor. Uma ementa cantada, onde os sabores tentam o palato. Cada qual pede a seu gosto. Delicio-me com migas de feijão frade com grelos e filetes de pescada, provo panados e bacalhau com natas...Ainda me aparece um bocadinho de vitela assada, muito tenra, para provar. Recomeçam as tentações. Pudim de chocolate com baba de camelo, bolo de chocolate com cerveja, bolo de bolacha e Pudim Abade de Priscos. Prova daqui e dali, tudo aprova com distinção. Cozinhar é uma arte, saber receber também, e quando ambos se conjugam sentimo-nos em casa de amigos. Mesmo ao balcão... 
Os portugueses preferem perder o seu  tempo a rir de quem canta mal a ganhá-lo ouvindo quem canta bem. É assim que  vejo o mais recente sucesso de uma Maria pouco leal à afinação...

Férias

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Dizem que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Eu fui feliz, ao longo de vários anos, aqui. Há sete ou oito anos que o local de férias tem sido outro, quis o destino que este ano (em que nem sequer contava poder ter férias a cinco) passássemos uma semana aqui. Noutro apartamento, é certo. Mas com vista para a piscina onde a S. aprendeu a nadar, onde as duas deixaram as braçadeiras para poderem mergulhar à vontade com o pai, onde fizeram amigos... À noite, as crianças continuam a brincar às escondidas como antigamente, e ao ouvi-las lembro-me das minhas recomendações do costume: não andem a tocar às campainhas, fiquem sempre juntas, não façam muito barulho. Sabendo que das três, escaparia uma- a de andarem juntas. Como era natural. Na piscina, há rostos que se mantém, misturados com caras novas-como sempre foi. De resto, desapareceu o supermercado da altura (alisuper?), substituído por outros com nomes estrangeiros. As figueiras do caminho continuam generosas. E a paz que inv...
Depois de uma semana intensa, que me fez questionar muito aquilo que faço, o que sou, como sou, e até para onde vou, longe da família, de casa, absolutamente fora da chamada "zona de conforto", uma semana em modo de férias, com muito sol, piscina, abraços, coisas frescas e descanso. Em modo de família restrita, com a consciência de que qualquer dia alguém vai dizer que não que vir de férias com os pais. Há que aproveitar bem, antes que esse dia chegue. É que as gargalhadas a quatro vozes são das melodias mais bonitas do meu verão...
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A sensação de incredulidade deu lugar à incapacidade de aceitar uma partida tão inesperada quanto dura e injusta. Foi um roubo descarado, um tirar o tapete, o apagar de alguém que era farol para tantos, que brilhava em tantas áreas, que sabia ouvir, que era a voz dos que a não tinham, que vi mais vezes exaltar-se defendendo direitos alheios do que a defender os próprios. Era daquelas pessoas que fazem falta ao mundo. Com um sentido de estética apurado, um rigor cirúrgico, um ... profissionalismo irrepreensível. Uma capacidade de entrega, sempre disponível para ajudar apesar das mil e uma atividades em que estava envolvido. Ajudar por ajudar, sem cobranças, como fazem os Homens bons. E ele será sempre recordado como um Homem Bom. Era uma árvore que cresceu com muitos braços, e todos os braços vingaram viçosos e deram flores e frutos diferentes mas igualmente belos. Semeava afetos. Embelezou muitos momentos e muitas casas com as suas obras de arte. Tinha sempre uma palavra para os out...
Tenho acompanhado o masterchef júnior, embora passe a vida a arrepiar-me e a fechar os olhos quando vejo os miúdos de faca na mão e fique com imensa vontade de entrar pelo écran e dar um abraço cada vez que um concorrente desaba em lágrimas. Um dos miúdos que saiu, o Gonçalo, foi alvo de críticas violentas por ser um miúdo arrogante, convencido, que se colocava sempre em primeiro lugar e que chegou a dar indicações erradas a outro concorrente com clara intenção de o prejudic ar. Claro que todos sabemos que isto está errado. Mas todos vemos diariamente adultos cheios de si, que se acham mais espertos do que os outros só porque os ultrapassam pela direita ou cortam caminho por portas travessas, que acham sempre que a culpa é dos outros quando as coisas correm mal, que não aceitam uma critica, que sabem sempre tudo mas na hora de ajudar fazem-se de sonsos e assobiam para o lado. Está certo, o miúdo é só um miúdo. Não devia ter perdido, ainda, aquelas qualidades que todos os miúdos dev...