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Em modo de introdução à aula: como sabem, na Idade Média os bens passavam todos do pai para o filho mais velho. Pergunta imediata: "e se fossem gémeos?" Depois de esgrimir a dificuldade de sobreviverem gémeos na Idade Média, lá atalho com a resposta lógica ( penso que a científica é outra): o que nascia primeiro seria o mais velho. Retomo o fio condutor. Se o mais velho herdava tudo, o que podiam fazer os outros irmãos para conseguirem algo de seu, para manterem as suas regalias? As hipóteses poderiam ser ajudar o rei na conquista de terras, desempenhar cargos administrativos ou ir para o clero (esta era a pretendida, para justificar a ausência de vocação nos membros de tal ordem social).Resposta que ouvi: Então? Matá-lo!
Era tão fácil se fossem(os) todos um bando de acéfalos oportunistas viciados nos pequenos e grandes poderes, sem capacidade de questionar, de pensar, de provocar. Era tão fácil substituir o sonho pelas palas, o desejo de voar pelo conforto do rastejo. Era tão fácil dizer convictamente que cada um tem aquilo que merece, cruzar os braços num sofá qualquer perdido em clichés partilhados- "antigamente é que era bom"ou " agora estamos melhorzinho", " é a vida" ou o golpe de misericórdia que é o "nunca pior", haja saudinha". Mas não, há quem tenha muito valor e continue aqui, a lutar por um país melhor, mesmo tratado como cidadão de segunda, infantilizado, explorado, subalternizado. Um país que não merece os seus?
Então como correu o dia? - Bem. - Tiveste o quê? - Aulas. -Sim, mas aulas de quê? - Disciplinas. (Quer-me parecer que a mais nova não quer conversa comigo. Ou isso ou tenho que rever as estratégias de diálogo)
Quando a Beatriz nasceu dei comigo a ouvir médicos, enfermeiros, pediatras a chamarem-me mãe. Mais tarde, no infantário lá vinha educadoras e auxiliares com o mesmo tratamento: mãe. E eu lá me fui habituando. Hoje dei comigo a chamar mãe a uma encarregada de educação. Ora toma. É o Karma. Ou água mole em pedra dura...
Não foi fácil lá chegar, mas houve um tempo em que pensei que Deus não existe para nos tirar as dificuldades do caminho mas para nos dar força e fé para aceitar e seguir em frente. Lembro-me de uma ocasião o meu pai (cristão praticante) me dizer: "saí do hospital tão zangado que me virei lá para cima e perguntei: Olha lá, Andas distraído?"(a causa era uma neta, em relação a si próprio nunca ouvi q ue discutisse com Deus). Nessa altura eu continuei a acreditar em Deus, a rezar a Deus, porque quando temos quem amamos doente sentimos que isto da cura tem uma percentagem de ciência, outra de sorte e alguma de fé. E não dá para prescindir da única coisa que podemos fazer naqueles momentos em que se toma conta do soro que pinga, os filhos dormem e os pais descansam, que é rezar. Ao longo de pouco mais de um ano, de perto e nas redes sociais acompanhei vários casos de cancros - em crianças, jovens e adultos. Há casos de remissão, de sucesso e esses casos são realme...
Os infanticídios não são um fenómeno do séc. XXI. Bem vistas as coisas, temos até ao séc. XVIII (em alguns casos até mais tarde) uma mortalidade infantil elevadíssima, a que não é alheia a morte provocada voluntariamente ou por negligência, potenciada pelos parcos cuidados de higiene e de saúde. Bebés enfaixados, bebés entregues a amas e criados longe das mães ou deixados na roda. A passagem de be bé a criança era um instante e o trabalho infantil era comummente aceite. A criança era um adulto em ponto pequeno. Em época de casamentos combinados por interesses, o amor conjugal era uma sorte mas o amor materno/ paterno também o era. Quase um descomprometimento afetivo para com os filhos que a qualquer momento morriam. Esta situação foi mudando com o tempo. Vivemos em tempo de direitos. E contudo, pais matam filhos, filhos matam pais, abandonos generalizados, como se à inexistência dos afetos sentidos corresponda uma incapacidade mental de agir como é suposto. Como se expl...

Do ensino

O primeiro ano em que dei aulas foi o ano em que os alunos deixaram de reprovar por faltas. Por outras palavras, deixou de haver aquela questão das faltas disciplinares servirem para reprovar. O que contribuiu para aumentar a indisciplina e as faltas de respeito para com professores, no dizer de alguns colegas. Aquilo era tudo novo para mim, não tinha ponto de comparação. Estivera fora de uma secundária por quatro anos mas a realidade mudara muito, até porque os meus olhos não eram já só os de aluna mas também de professora. As pessoas já se queixavam, mas de facto ainda havia as reduções por idade/ tempo de serviço, horário letivo (só), com menos horas, redução para quem só lecionasse secundário, etc. Naturalmente que estas coisas se destinavam aos colegas com mais tempo de serviço. Podia dizer que para os miniconcursos ficavam as turmas que sobravam, que quem era da casa não queria, mas estaria a ser injusta. Adorei os meus meninos do Pires de Lima, do Rodrigues, do C...