No meu tempo de aluna, com três negativas reprovava-se. Todos sabiam com o que contavam. Grande parte dos amigos ficava-se pela escolaridade obrigatória- o 6º ano, antigo 2º ano do ciclo. Os restantes, se continuavam na escola era porque teriam objetivos. A mensagem do "estuda para conseguires um bom emprego" ainda fazia algum sentido nas nossas cabeças. A nossa motivação vinha do interesse suscitado por alguns conteúdos, da atitude de incentivo de alguns professores (refira -se que muitos cingiam-se a debitar conteúdos, parecendo preocupar-se pouco com metodologias inovadoras- e aqui os slides eram uma coisa fantástica!), da vontade de tirar boas notas (aqui sobretudo para os alunos habituados a elas) e dos sonhos que tínhamos para o futuro. Acredito que tem está fora do ensino se surpreenda com o facto de alunos com sete negativas (no ensino, com sete níveis inferiores a três, que os eufemismos tornam a realidade mais suportável) transitarem nos anos int...
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Vales pelo que és, pelo que fazes, pelo que pensas ou pelo que dizes. Os outros valem por si e em si mesmos. Os outros não são os teus troféus, as vitórias deles não são tuas. Do mesmo modo as derrotas dos outros não são tuas, são deles. Compete-lhes aprender com ambas. Não podes viver por interposta pessoa. Não penses que os que não discordam contigo estão a apoiar-te. Às vezes desistiram apenas de te contrariar porque só os ouves na concordância, como se esperasses que foss em ecos da tua voz. Não confundas sorrisos forçados com simpatia. Não te surpreendas com as traições nem deixes que estas te roubem a capacidade de acreditar. Deixa que a tua consciência seja o teu único juiz. Não faças fretes. Não tenhas medo de ser, de sentir, de rir e de chorar. Não te escondas, mas se te apetecer, não te mostres. Dá-te o direito a não fazer porque não te apetece. Deixa-te, quando puderes e enquanto puderes, ser feliz...
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Estão 23 graus. Agradáveis, soalheiros, mas 23. Na esplanada expõem-se bronzeados em bikinis que levam a supor que em vez de 23 estão 32. As pernas não cabem sob as mesas, têm que pousar-se em sítio onde o sol as veja, em poses que cabem bem na praia mas na esplanada, enfim... Tento manter o espírito aberto, respeitar que outros tenham vontade de andar a ostentar o bronze para cima de quem é copo de leite todo o ano. Que uma esplanada é um sítio como outro qualquer, que há liberdade para alguma coisa. Sou traída pelo olhar, concluo que tenho que andar de óculos escuros. Chego ao carro a sentir-me um matusalém. Diz a mais nova : viste mãe? As sheilas da tua idade?
Recordações de outros domingos
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Há muitos anos os domingos à tarde acabavam à mesa, com chá e torradas da Dona S., generosamente barradas com planta. Era pirâmides de torradas, como se o pão de toda a semana se tivesse juntado para o lanche de domingo. O lanche era acompanhado pelas histórias animadas do Sr. L., dono de uma memória prodigiosa e de um sentido de humor peculiar. Às vezes éramos mais à mesa, e aproveitávamos para uma partida de cartas, com o MacGuiver a protagonizar prodigiosos salvamentos ou com o Kit, o carro que ía falando com o seu amigo justiceiro. Foi assim durante anos a fio, até que a vida quis que passássemos a ser família e os lanches fossem substituídos por um telefonema à noite e quase duas horas de distância. A aldeia era um projeto em banho maria para o casal, e ainda bem que puderam viver o sonho enquanto a saúde e a vida permitiram. Já lá vão mais de 20 anos mas volta e meia a memória lá se lembra do chá e das torradas. E sobretudo das conversas, que começavam geralmente com um "ent...
Praia de Miradeses
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Miradeses foi a praia para onde fui no verão passado. Sossegado, resguardado, permite para levar o canito, de vez em quando vem um trator e atravessa o riacho de águas límpidas onde se podem ver cardumes de pequeninos seres que volta e meia picam os pés (não cheguei a perceber se são daqueles peixes esteticistas), tem alguma afluência poliglota (como acontece com todo o país no mês de Agosto), dá para refrescar num verão transmontano que faz jus ao ditado "seis meses de inverno e seis de inferno"- no que às temperaturas diz respeito. Faz-se praia literalmente no leito do rio, que no verão fica a descoberto- nesta foto do Público está coberto por água. Na semana passada passei por lá, as águas corriam rápidas, mas o que me surpreendeu mais foi um enorme rebanho que atravessava a ponte sobre o rio. Ocupava literalmente a ponte toda (e ela não é pequena). Ah, e sim, às vezes o rebanho também vai à praia... Praia de Miradeses no Público
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Primeiro sente-se esperança, pensa-se positivo, acredita-se que será por pouco tempo. Alega-se que quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. Depois trabalha-se muito, faz-se por aparecer, por manter contactos, por procurar novas vias porque as oportunidades constroem-se. Tem-se saudades dos colegas, dos amigos, das rotinas, do telefone sempre a tocar. É como um divórcio involuntário, quer-se saber como as coisas estão com o outro lado, sentindo-se de antemão que tudo o que se vai ouvir saberá a descontentamento, a um "estar à margem". Luta-se muito para se manter a sanidade. Faz-se exercício, cuida-se da alimentação, ocupa-se o tempo a fazer de motorista, ao volante ou no ipad, aspira-se a casa muitas vezes, leva-se o cão à rua. O desemprego não é uma corrida de cem metros. O desemprego é uma maratona. Uma maratona de currículos enviados, de entrevistas que acendem esperanças, de recusas que chegam, de respostas que ficam por dar. Um somatório de "ficará pa...
Dia do pai
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Ao meu pai, de quem herdei (dizem as más línguas) parte do feitio (houve um tempo em que me podia dar ao luxo de ter mau feitio, agora acho que estou mais docinha... digo eu, que sou suspeita) a miopia, o cabelo louro, mas também o acreditar nos jovens e no ideal de tentarmos deixar o mundo melhor do que o encontramos. Ao meu sogro, a quem nunca chamei pai mas de quem gostava como se o fosse, e de quem inevitavelmente me lembro, até pela proximidade com a data em que partiu ( fez ontem sete anos). E aquele que eu tornei pai - o pai das minhas filhas, que as mima e as compreende e que alinha em tais brincadeiras que às vezes até me faz pensar que em vez de duas tenho três filhos! Feliz dia do Pai, de S. José, um homem revolucionário e arrojado que aceitou casar com uma mulher mais jovem, grávida por obra do Espírito Santo - dá que pensar, não dá?