Mensagens

Imagem
A sensação de incredulidade deu lugar à incapacidade de aceitar uma partida tão inesperada quanto dura e injusta. Foi um roubo descarado, um tirar o tapete, o apagar de alguém que era farol para tantos, que brilhava em tantas áreas, que sabia ouvir, que era a voz dos que a não tinham, que vi mais vezes exaltar-se defendendo direitos alheios do que a defender os próprios. Era daquelas pessoas que fazem falta ao mundo. Com um sentido de estética apurado, um rigor cirúrgico, um ... profissionalismo irrepreensível. Uma capacidade de entrega, sempre disponível para ajudar apesar das mil e uma atividades em que estava envolvido. Ajudar por ajudar, sem cobranças, como fazem os Homens bons. E ele será sempre recordado como um Homem Bom. Era uma árvore que cresceu com muitos braços, e todos os braços vingaram viçosos e deram flores e frutos diferentes mas igualmente belos. Semeava afetos. Embelezou muitos momentos e muitas casas com as suas obras de arte. Tinha sempre uma palavra para os out...
Tenho acompanhado o masterchef júnior, embora passe a vida a arrepiar-me e a fechar os olhos quando vejo os miúdos de faca na mão e fique com imensa vontade de entrar pelo écran e dar um abraço cada vez que um concorrente desaba em lágrimas. Um dos miúdos que saiu, o Gonçalo, foi alvo de críticas violentas por ser um miúdo arrogante, convencido, que se colocava sempre em primeiro lugar e que chegou a dar indicações erradas a outro concorrente com clara intenção de o prejudic ar. Claro que todos sabemos que isto está errado. Mas todos vemos diariamente adultos cheios de si, que se acham mais espertos do que os outros só porque os ultrapassam pela direita ou cortam caminho por portas travessas, que acham sempre que a culpa é dos outros quando as coisas correm mal, que não aceitam uma critica, que sabem sempre tudo mas na hora de ajudar fazem-se de sonsos e assobiam para o lado. Está certo, o miúdo é só um miúdo. Não devia ter perdido, ainda, aquelas qualidades que todos os miúdos dev...
No meu tempo de aluna, com três negativas reprovava-se. Todos sabiam com o que contavam. Grande parte dos amigos ficava-se pela escolaridade obrigatória- o 6º ano, antigo 2º ano do ciclo. Os restantes, se continuavam na escola era porque teriam objetivos. A mensagem do "estuda para conseguires um bom emprego" ainda fazia algum sentido nas nossas cabeças. A nossa motivação vinha do interesse suscitado por alguns conteúdos, da atitude de incentivo de alguns professores  (refira -se que muitos cingiam-se a debitar conteúdos, parecendo preocupar-se pouco com metodologias inovadoras- e aqui os slides eram uma coisa fantástica!), da vontade de tirar boas notas (aqui sobretudo para os alunos habituados a elas) e dos sonhos que tínhamos para o futuro. Acredito que tem está fora do ensino se surpreenda com o facto de alunos com sete negativas (no ensino, com sete níveis inferiores a três, que os eufemismos tornam a realidade mais suportável) transitarem nos anos int...
Vales pelo que és, pelo que fazes, pelo que pensas ou pelo que dizes. Os outros valem por si e em si mesmos. Os outros não são os teus troféus, as vitórias deles não são tuas. Do mesmo modo as derrotas dos outros não são tuas, são deles. Compete-lhes aprender com ambas. Não podes viver por interposta pessoa. Não penses que os que não discordam contigo estão a apoiar-te. Às vezes desistiram apenas de te contrariar porque só os ouves na concordância, como se esperasses que foss em ecos da tua voz. Não confundas sorrisos forçados com simpatia. Não te surpreendas com as traições nem deixes que estas te roubem a capacidade de acreditar. Deixa que a tua consciência seja o teu único juiz. Não faças fretes. Não tenhas medo de ser, de sentir, de rir e de chorar. Não te escondas, mas se te apetecer, não te mostres. Dá-te o direito a não fazer porque não te apetece. Deixa-te, quando puderes e enquanto puderes, ser feliz...
Estão 23 graus. Agradáveis, soalheiros, mas 23. Na esplanada expõem-se bronzeados em bikinis que levam a supor que em vez de 23 estão 32. As pernas não cabem sob as mesas, têm que pousar-se em sítio onde o sol as veja, em poses que cabem bem na praia mas na esplanada, enfim... Tento manter o espírito aberto, respeitar que outros tenham vontade de andar a ostentar o bronze para cima de quem é copo de leite todo o ano. Que uma esplanada é um sítio como outro qualquer, que há liberdade para alguma coisa. Sou traída pelo olhar, concluo que tenho que andar de óculos escuros. Chego ao carro a sentir-me um matusalém. Diz a mais nova : viste mãe? As sheilas da tua idade?

Recordações de outros domingos

Há muitos anos os domingos à tarde acabavam à mesa, com chá e torradas da Dona S., generosamente barradas com planta. Era pirâmides de torradas, como se o pão de toda a semana se tivesse juntado para o lanche de domingo. O lanche era acompanhado pelas histórias animadas do Sr. L., dono de uma memória prodigiosa e de um sentido de humor peculiar. Às vezes éramos mais à mesa, e aproveitávamos para uma partida de cartas, com o MacGuiver a protagonizar prodigiosos salvamentos ou com o Kit, o carro que ía falando com o seu amigo justiceiro. Foi assim durante anos a fio, até que a vida quis que passássemos a ser família e os lanches fossem substituídos por um telefonema à noite e quase duas horas de distância. A aldeia era um projeto em banho maria para o casal, e ainda bem que puderam viver o sonho enquanto a saúde e a vida permitiram. Já lá vão mais de 20 anos mas volta e meia a memória lá se lembra do chá e das torradas. E sobretudo das conversas, que começavam geralmente com um "ent...

Praia de Miradeses

Imagem
Miradeses foi a praia para onde fui no verão passado. Sossegado, resguardado, permite para levar o canito, de vez em quando vem um trator e atravessa o riacho de águas límpidas onde se podem ver cardumes de pequeninos seres que volta e meia picam os pés (não cheguei a perceber se são daqueles peixes esteticistas), tem alguma afluência poliglota (como acontece com todo o país no mês de Agosto), dá para refrescar num verão transmontano que faz jus ao ditado "seis meses de inverno e seis de inferno"- no que às temperaturas diz respeito. Faz-se praia literalmente no leito do rio, que no verão fica a descoberto- nesta foto do Público está coberto por água. Na semana passada passei por lá, as águas corriam rápidas, mas o que me surpreendeu mais foi um enorme rebanho que atravessava a ponte sobre o rio. Ocupava literalmente a ponte toda (e ela não é pequena). Ah, e sim, às vezes o rebanho também vai à praia... Praia de Miradeses no Público