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A aldeia já não é o que era

Quando falei com a sua mãe (para que esta autorizasse ida da C. connosco), referi-me à aldeia como pacífica, sossegada, em clima típico de festa. Festa da aldeia. Chegamos à noite, mas ainda houve oportunidade para darem um passeio. É normal as pessoas estarem na rua, "ao fresco", e esse dia não era exceção. Também é costume "dar as boas horas", que é como quem diz, cumprimentar quem está na rua. Faz parte dos rituais. Mas com as alterações demográficas do sítio, também é frequente que as boas noite sejam unilaterais ou simplesmente fiquem esquecidas...Pois logo na primeira hora de estada na aldeia, a C. foi brindada com comentários pouco agradáveis e muito audíveis relativamente ao facto de ser pouco educada (ela e quem a acompanhava) pelo facto de só terem dado as boas noites quando cumprimentadas, e não antes. Isto de estar em casa e ouvir uma mulher em altos brados a dirigir-se aos nossos e a quem pela primeira vez estava de visita doeu-me. Não, elas não são net...

Na nossa aldeia, que Deus a proteja, já passou a procissão...

Olho para a procissão. Os cavalos a abrirem caminho, seguidos da fanfarra que faz concorrência aos foguetes com os seus bombos troantes. Vêm os andores carregados com esforço, muitos deles por mulheres vestidas de festa e descalças de penitência. Sinto-lhes o cansaço, o esforço, imagino-lhes a promessa, questiono se é Deus quem quer, se são os Humanos que não sabem o que mais fazer em hora de desespero. Recordo a minha primeira procissão, de Nossa Senhora da Saúde amuada, a protestar por que raio os outros faziam promessas e eu é que tinha que ir nas procissões. Lembro-me do medo das canas dos foguetes que passavam perto quando, anos mais tarde, ia na procissão (íamos todos os que tínhamos feito a comunhão solene, de vestidos compridos e grinaldas no cabelo) do Bom Despacho. Revejo as minhas filhas pequenas, vestidas pela avó, para irem nesta procissão de S. Bartolomeu. A procissão da festa na aldeia. Lembro-me de ter feito parte da procissão com a mais nova ao colo. Das...
Difícil medir o grau de coragem, sim. Mas na essência, a coragem é do tamanho do medo. E cresce com ele, para o vencer (ou ao que o provocou). 

Da felicidade

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A primeira veio num ramo lindo oferecido por um grupo de três alunos, no primeiro ano em que trabalhei na Escola (já lá vai mais de uma década) . Ao perceber que se dava bem cá por casa, ganhou companhia. O tempo foi passando, e as canas da felicidade (que pelos vistos afinal são bambus da sorte, diz o Google) lá se aguentaram. Há dois anos começaram aos poucos a secar. Uma após a outra. Até sobrar uma, a última, que, embora tremida, se aguentou. Resolvi então arranjar-lhe companhia. Trouxe 4, para que na jarra estejam em número ímpar. Foi o que me recomendaram. Pelos vistos há uma simbologia relativamente ao número de bambus, mas eu desconheço-a. "E não mude a água, só acrescente. Ponha numa jarra opaca, para não se ver a água"- disseram.  Vim a pensar que isto da felicidade não é nada fácil de conseguir. Há que saber acrescentar. E, se calhar, perceber quando isso basta, e quando não há outro remédio senão mudar a água. E, em última instância, as canas...

Diz-me o que comes...

E dizia um senhor doutor (dos que tratam doenças), no primeiro canal (à moda antiga), hoje: a nossa alimentação tradicional era muito saudável, baseada mais em proteínas, com poucos hidratos de carbono, e muita fruta e legumes. Na década de oitenta aumentou o consumo de hidratos e a obesidade disparou. E vai de mostrar uns riscos disfarçados de gráfico para dar rigor científico à afirmação. Ora eu sempre ouvi falar das refeições tradicionais como ricas em pão (que ao pequeno almoço se enfiava na malga da cevada- quando esta refeição não era sopa, ao almoço e ao jantar empurrava o arroz, ou engrossava a sopa, e se servia ao lanche, com rodelas de chouriça, ou com banana) arroz, feijão, batatas... Carne era sobretudo ao domingo, à semana havia mais peixe, destacando-se aqui o fiel amigo bacalhau. Não percebo onde está o predomínio da proteína. Percebem-se as mudanças (felizes) ocorridas nas décadas de 70 e 80: melhores condições de vida levaram a uma mesa mais farta, a abertura à ...
Ela queixava-se. Ele chegava ao fim do dia, carregado de bichos que ela tinha que preparar. Bichos cheios de chumbos. Havia que depenar o que tinha penas, tirar a pele aos outros, dar a vizinhas ou encher a arca, porque ele levaria a mal que deitasse fora. Ela odiava. Ele adorava. Sentia-se o verdadeiro Homem, espingarda certeira, trazendo os troféus para casa. Já lá vão uns anos. Mas lembro-me do ar dela, a suspirar, à segunda, depois de uma jornada de domingo à noite, dia de chacina. Lembro-me sempre que falam da época de caça. Sim, eu já disparei uns tiros com uma espingarda de pressão de ar. Ficou-me a doer o ombro, mas até acertava nas latas. Latas. Porque carga de água há homens que se vestem como se fossem para a guerra, agarram na espingarda, põem os cães a dieta rigorosa, e vão dar tiros para o ar? Expliquem-me lá o fascínio pela caça. É que em vez de pombos e lebres, podiam fazer tiro aos pratos, sempre era mais ecológico...

De pequenino...

São dois irmãos, com pouca diferença de idade. Pequeninos, terão entre os 3 e os 5 anitos. A regra: na piscina não podem molhar as orelhas. O chapéu não sai da cabeça dos dois. Ela atira água ao irmão. Ele retalia. Ela alerta: "mãããeeee! O mano molhou-me as orelhas!". A mãe ralha com ele. A coisa acalma. Passado um bocado ela vai e enfia o chapéu do irmão na água. Ele agarra o chapéu, enfia-o na cabeça e prega-lhe um estalo. Ela retribui o mimo, que foi visto também pelos progenitores. Filho fora da água, a esbracejar de contrariado, e acaba por ir para casa ao colo do pai. Filha continua na água, impávida e serena, e passado uns bons 10 minutos pergunta à mãe "onde está o pai?". Educar é difícil e ver tudo também, mas ralhar sempre ao mesmo devia levantar suspeitas em quem ralha. Quanto à pequenita, tem talento! Parece alguns adultos que todos conhecemos...