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Há pessoas assim...

Era assim, absolutamente incapaz de sentir. Sobrevoava a realidade, ouvia queixumes e provocava lágrimas ou sorrisos. Mas era incapaz de chorar, de sorrir, de sentir. Tinha a proximidade daqueles que porque tão distantes suscitavam desabafos e emanavam confiança. Inexpressiva, ouvia e falava como se nada a surpreendesse ou chocasse.  Vivia narcotizada pela ausência de si própria. Essa capacidade dava-lhe um poder imenso. Conseguia manipular os outros como um cirurgião manejando a palavra bisturi de forma oportuna e certeira. Alguns admiravam-na imensamente. Outros temiam-na. E finalmente, poucos, muito poucos, ficavam surpreendidos com a forma como conjugava uma genialidade transbordante e um deserto afetivo asfixiante.

Dás-me a receita?

Quando era adolescente, não gostava de dar as receitas dos bolos que fazia. Eram “receitas de família”, por isso sentia que partilha-las era perdê-las. Com o tempo percebi que era mesmo ao contrário, porque cada vez que fazia os bolos da avó, da tia, de uma amiga cujo contacto entretanto perdi, ou até de pessoas que não conheci (mas que eram amigos de quem me deu a receita- como a tarte da Celeste) recordava essas pessoas, evocava-as pelos sabores que nos deixaram, era como se elas estivessem presentes à/ na mesa em dias de festas. E nos outros dias também. Perpetuamo-nos também nas receitas que partilhamos. E até por estas bandas há pessoas que estão já perpetuamente na minha mesa e no meu livro de receitas!
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Desligar o pensamento e concentrar-me no que me dão os sentidos. As abelhas, os grilos, uns passaritos, um senhor que volta e meia protesta ao longe (com a burra, dizem-me), a brisa que agita as ervas, um serrote que corta os ramos das oliveiras acabadas de podar. As borboletas que começam a aparecer, as flores que enfeitam as árvores, as cerejeiras que secaram apesar dos meus abraços de outros anos, o sol que pede roupa mais fresca, as ovelhas do caminho com quem gosto de falar (porque elas respondem), a falta de fôlego do caminho íngreme e a recompensa da vista ao chegarmos ao destino. A terra não é só a terra. A terra guarda a alma dos que a cuidaram como se fosse um pouco de si. A terra, esta terra, guarda muitas histórias. E já faz parte da minha história também.
Estava em modo de ecografia, quando subitamente o ouvi. Todo despachado, num som que me foi familiar e me trouxe tão boas recordações. Recordações de ouvir bater corações dentro de mim. Corações que batiam bem mais depressa do que o meu. Corações que sendo a razão do meu coração, valiam (valem) tão mais do que ele. Percebi que ouvi muitas vezes os corações delas. Das minhas filhas. Ainda não as conhecia, não lhes sabia dos traços, nem do choro, nem dos sorrisos. Mas já sabia como soava o seu coração. Hoje, conscientemente, percebi que afinal anda por aqui um coração que galopa nas emoções e bate cheio de vontade. E eu, que sinto e penso contigo, tão mais vezes do que devia, tenho de confessar que me fez muito bem ouvir-te, coração!
Conjugo o não gostar de ir ao médico com um certo desleixo relativamente às mazelas que me vão aparecendo, arranjando desculpas e aguentando as dores até que passem (porque "é um vírus", ou " é uma coisa", ou " isto dá-se 3 dias e passa", mesmo que por vezes tenha que acrescentar mais uns dias além desses...). Desta vez, foi uma enfermeira que alertou: é melhor marcar consulta com o seu médico de família, ou ainda o perde. Porque realmente não andava a sentir-me bem, assim o fiz. A 22 de outubro consegui consulta para 5 de dezembro- uma quarta à tarde, para não faltar às aulas. E não poderia ter sido uma data melhor escolhida... No dia da consulta, fui sentindo acentuar-se uma sensação de vertigem que volta e meia me acompanha e me faz andar de olho em paredes e corrimãos (espero que o plural seja este), não vá efetivar-se em queda. De tal modo que o meu regresso a casa, no fim das aulas, foi de taxi.Não estava em condições para arriscar o autocarro. Ch...

A aldeia já não é o que era

Quando falei com a sua mãe (para que esta autorizasse ida da C. connosco), referi-me à aldeia como pacífica, sossegada, em clima típico de festa. Festa da aldeia. Chegamos à noite, mas ainda houve oportunidade para darem um passeio. É normal as pessoas estarem na rua, "ao fresco", e esse dia não era exceção. Também é costume "dar as boas horas", que é como quem diz, cumprimentar quem está na rua. Faz parte dos rituais. Mas com as alterações demográficas do sítio, também é frequente que as boas noite sejam unilaterais ou simplesmente fiquem esquecidas...Pois logo na primeira hora de estada na aldeia, a C. foi brindada com comentários pouco agradáveis e muito audíveis relativamente ao facto de ser pouco educada (ela e quem a acompanhava) pelo facto de só terem dado as boas noites quando cumprimentadas, e não antes. Isto de estar em casa e ouvir uma mulher em altos brados a dirigir-se aos nossos e a quem pela primeira vez estava de visita doeu-me. Não, elas não são net...