Mensagens

Na escola havia muitos grupos. Destacavam-se os fixes, que criavam modas, lançavam tendências, criticavam os outros e faziam bullying a quem viam como inferior ou como uma ameaça... Ter boas notas, por exemplo, era um convite a ser gozado, e os métodos podiam ser bem cruéis. Sim, porque os fixes não eram os que tiravam boas notas (que isso era arrasar com a reputação da espécie). Eram os que vestiam melhor, tinham lambretas, fumavam, saiam à noite, passavam férias em locais extraordinários  e arrasavam só com um olhar reprovador. Geralmente sentavam-se ao fundo da sala, onde era mais fácil trocarem mensagens (nesse tempo eram papelinhos, que o tempo dos telemóveis vinha longe) e risinhos. Se cá fora os professores eram brindados com comentários mordazes, dentro da sala recebiam doses reforçadas de simpatia para compensar a falta de outros atributos (cognitivos, vá). E estranhamente resultava, como se os profes não percebessem a realidade, ou simplesmente não a quisessem ver. Alguns...

Quando eu for grande quero ir à Primavera

Imagem
Dezasseis anos depois de o ter trazido para casa, o livro voltou às mãos de quem o escreveu e voltou às minhas com uma dedicatória. Ouvi-lo é de facto estar sempre a aprender. José Pacheco temperou a seriedade do que contava com um bom humor que lhe é intrínseco para quebrar momentos mais pesados. Provocatório, lança afirmações polémicas, e mostra formas diferentes de aprender. Expressões como "núcleo de projeto", "roteiro de aprendizagem", a passagem "círculo- comunidade- rede", "plataformas de aprendizagem", a importância do "vínculo", a necessidade da criação de uma  "responsabilidade coletiva"e da solidariedade. Enfim, muitas pistas ficaram. Da plateia senti dúvidas, necessidades de uma escola diferente, mágoas daqueles que não se revêm num sistema de ensino do século XVIII (para não ir mais longe). De uma escola que avia paginas de manual e carimba na testa dos alunos números, como se eles fossem as notas que tiram... As ...
Imagem
A escola onde trabalho é conhecida na comunicação social por motivos habitualmente menos felizes. E contudo, é com orgulho que digo que trabalho no Cerco. Têm sido anos de desafios, de conquistas, de avanços e recuos, de turmas difíceis que me obrigaram a dar voltas à imaginação para conseguir chegar até eles, de alunos de uma generosidade imensa, de experiências inesquecíveis. De abraços, de lágrimas, de reclamações, de sermões, de cumplicidades, de olhares, de brincadeiras muito sérias. Ensinaram-me a ser como eles, "à cara podre", que é como quem diz, a dizer o que penso. Ensinaram-me que é possível florescer nas condições mais adversas. Que é possível resistir. Espero ter-lhes ensinado que é preciso não desistir de sonhar e de lutar pelos sonhos. E aproveitar o que cada dia nos dá. E lutarmos por sermos um bocadinho melhores todos os dias. Gostava que se lembrassem de mim como alguém que além de lhes ensinar um bocadinho do mundo, os ajudou a serem pessoas melhores.
Ensinar é abrir janelas, é mostrar caminhos, é ajudar nas escolhas sem as impor, é dar sentido, é tirar o tapete das certezas e incentivar a fazer diferente, é perder o medo de tentar, é recusar chavões, é por em causa, é ouvir muito, ouvir sobretudo com os olhos e com o coração. Ensinar não pode ser viver atravancado em programas que não acabam e tornam os professores em coelhos da Alice, sempre atrasados... Ensinar não devia estar nas mãos de professores que têm alunos preferidos (aqueles que tiram boas notas e prometem boas figuras- para eles? para os professores?- nos exames) e marginalizam os "outros" a quem brindam com epítetos que os fariam correr para a escola se os alvos desses mimos fossem os seus filhos. Ensinar só faz sentido se o que se ensina e o como se ensina fizerem sentido. E sobretudo, o para que é que se ensina? Ensinar exige humildade, exige coragem e exige foco no aprender. O aprender de quem aprende e o aprender de quem ensina. Foram nove meses muito in...

Parabéns!

Imagem
Hoje é o dia da minha Princesa, que há vinte anos, num dia cinzento, resolveu nascer, dez dias antes do previsto. Acho que estava tão farta de aulas que diante da perspetiva de um início do segundo período a levar com ecos históricos, deu o grito do Ipiranga e veio conhecer aqueles que durante nove meses só conhecia de ouvir falar-lhe. Começou a andar muito cedo, a falar cedo, a sonhar cedo com a independência. É muito sensível, solidária, e diante de situações complicadas consegue tomar o leme e levar o barco para a frente. Quando era pequena, e se magoava, franzia os lábios, engolia as lágrimas e seguia em frente. Não doeu, dizia. Mas doía. Ainda agora é assim. Quando a magoam, ela engole o choro, e finge que não sente nem sofre. E pensam que ela é o que não é. Há coisas que as mães sabem, que os filhos nem sonham. É a minha, de seu nome "a que faz alguém feliz", a quem desejo sucessos, conquistas, projetos, sonhos, amores, alegrias e muita sorte. Parabéns! Nascemos, mãe e ...
Falamos de escravatura como uma coisa do passado ou de outras latitudes. Criticamos os que escravizavam, os que submetiam, os homens que compravam outros homens, achando que a cor da pele determinava a humanidade de cada um. Falamos da escravatura como sinal abjecto de uma civilização inferior. Depois, decidimos vidas alheias como se fossem nossas. Podemos condenar os outros ao que não querem, mesmo que pensemos que é para o seu bem? Sujeitar à nossa vontade? Escravo é o que não é livre, ou o que não pode usufruir da sua liberdade, mesmo que a tenha? Escravo porque explorado, porque sobrecarregado, porque sugado até ao último sorriso, à última vontade, à derradeira esperança. Escravo porque desrespeitado na sua maneira de ser. Escravo porque apoucado por quem lhe diz que não se apouque. Escravo porque revoltado diante de outros escravos que se desfazem em sorrisos falsos. Escravo porque é a vida, escravo do trabalho, das modas, dos juízos alheios, dos medos, escravo dos outros e de si...
Chegar ao balcão e ter uma feijoada para degustar, ainda antes de ver a ementa. "Se soubesse que vinha, tinha feito rabanadas"diz o anfitrião, de sorriso sincero e acolhedor. Uma ementa cantada, onde os sabores tentam o palato. Cada qual pede a seu gosto. Delicio-me com migas de feijão frade com grelos e filetes de pescada, provo panados e bacalhau com natas...Ainda me aparece um bocadinho de vitela assada, muito tenra, para provar. Recomeçam as tentações. Pudim de chocolate com baba de camelo, bolo de chocolate com cerveja, bolo de bolacha e Pudim Abade de Priscos. Prova daqui e dali, tudo aprova com distinção. Cozinhar é uma arte, saber receber também, e quando ambos se conjugam sentimo-nos em casa de amigos. Mesmo ao balcão...