Avançar para o conteúdo principal
Quando a conheci, dividia as pessoas em dois tipos: as que lhe interessavam e as outras. Com as primeiras gastava cordialidades e simpatias. As outras eram tratadas com desdém ou simplesmente ignoradas. Chegavam-lhe as que lhe interessavam para forjar uma vida social que lhe agradava e ia ao encontro de um estatuto que ambicionara desde sempre. Nem sempre possuía desafogo financeiro para acompanhar os que lhe interessavam, mas ao saber escolhê-los, acabava por beneficiar de algumas boleias. O tempo passou, e com ele a realidade foi-se transformando. Uns afastaram-se, outros passaram a vê-la de outra forma, sentiu que era, aos olhos dos que lhe interessavam, a que não interessava. Teve que rever estratégias, passar a interessar-se por quem nunca lhe interessara. Deu consigo a mendigar amizades que se traduzissem em mais do que likes das redes sociais, acabou por cobrar atenção daqueles que lhe davam menos do que achava que merecia, lembrando-lhes do que, há décadas, fizera por elas. Como se os afectos pudessem ser exigidos, como se se pudesse colher sem semear, ou sem cuidar do que se semeou. Toda a vida manipuladora, percebeu pela primeira vez que já não dominava os outros. E não percebia que, nos afetos, a única forma de voltar a receber era aprender a dar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Parabéns!

Hoje é o dia da minha Princesa, que há vinte anos, num dia cinzento, resolveu nascer, dez dias antes do previsto. Acho que estava tão farta de aulas que diante da perspetiva de um início do segundo período a levar com ecos históricos, deu o grito do Ipiranga e veio conhecer aqueles que durante nove meses só conhecia de ouvir falar-lhe. Começou a andar muito cedo, a falar cedo, a sonhar cedo com a independência. É muito sensível, solidária, e diante de situações complicadas consegue tomar o leme e levar o barco para a frente. Quando era pequena, e se magoava, franzia os lábios, engolia as lágrimas e seguia em frente. Não doeu, dizia. Mas doía. Ainda agora é assim. Quando a magoam, ela engole o choro, e finge que não sente nem sofre. E pensam que ela é o que não é. Há coisas que as mães sabem, que os filhos nem sonham. É a minha, de seu nome "a que faz alguém feliz", a quem desejo sucessos, conquistas, projetos, sonhos, amores, alegrias e muita sorte. Parabéns! Nascemos, mãe e…

A relatividade da beleza

A beleza não é só exterior, mas também o é. Claro que é. E podemos dizer que uma pessoa tem um "padrão de beleza alternativa", mas isso não passa de um eufemismo. A beleza não é um conceito universal, tem diferentes matizes, quer em termos etários, quer geográficos, quer temporais. Ser bela no séc. X, XVI, XVIII, XX ou XXI não é claramente a mesma coisa. Mas para mim, há uma beleza que transcende o rosto ou o corpo, a beleza das pessoas "iluminadas". Essas pessoas até podem ser consideradas à primeira vista, como "feias". Mas sabem, são as feias mais bonitas que conheço!
Os portugueses preferem perder o seu  tempo a rir de quem canta mal a ganhá-lo ouvindo quem canta bem. É assim que  vejo o mais recente sucesso de uma Maria pouco leal à afinação...