domingo, 9 de abril de 2017

Na escola havia muitos grupos. Destacavam-se os fixes, que criavam modas, lançavam tendências, criticavam os outros e faziam bullying a quem viam como inferior ou como uma ameaça... Ter boas notas, por exemplo, era um convite a ser gozado, e os métodos podiam ser bem cruéis. Sim, porque os fixes não eram os que tiravam boas notas (que isso era arrasar com a reputação da espécie). Eram os que vestiam melhor, tinham lambretas, fumavam, saiam à noite, passavam férias em locais extraordinários  e arrasavam só com um olhar reprovador. Geralmente sentavam-se ao fundo da sala, onde era mais fácil trocarem mensagens (nesse tempo eram papelinhos, que o tempo dos telemóveis vinha longe) e risinhos. Se cá fora os professores eram brindados com comentários mordazes, dentro da sala recebiam doses reforçadas de simpatia para compensar a falta de outros atributos (cognitivos, vá). E estranhamente resultava, como se os profes não percebessem a realidade, ou simplesmente não a quisessem ver. Alguns dos fixes crescem, mas outros ganham só uma capa de adulto. Lá por dentro continuam os mesmos. A fazerem metáforas de gosto duvidoso, ou melhor, de refinada ironia, a desculparem as crias porque são fixes e fazem coisas de crianças, mesmo com a maioridade à porta e a provarem que isso não tem mal nenhum, pois os fixes também constroem carreiras de grande sucesso.

sábado, 11 de março de 2017

Quando eu for grande quero ir à Primavera

Dezasseis anos depois de o ter trazido para casa, o livro voltou às mãos de quem o escreveu e voltou às minhas com uma dedicatória. Ouvi-lo é de facto estar sempre a aprender. José Pacheco temperou a seriedade do que contava com um bom humor que lhe é intrínseco para quebrar momentos mais pesados. Provocatório, lança afirmações polémicas, e mostra formas diferentes de aprender. Expressões como "núcleo de projeto", "roteiro de aprendizagem", a passagem "círculo- comunidade- rede", "plataformas de aprendizagem", a importância do "vínculo", a necessidade da criação de uma  "responsabilidade coletiva"e da solidariedade. Enfim, muitas pistas ficaram. Da plateia senti dúvidas, necessidades de uma escola diferente, mágoas daqueles que não se revêm num sistema de ensino do século XVIII (para não ir mais longe). De uma escola que avia paginas de manual e carimba na testa dos alunos números, como se eles fossem as notas que tiram... As suas ideias mudam tudo, muito. Pedem uma forma diferente de gestão, uma nova maneira de ser na comunidade educativa,  os professores são tutores especialistas, não há salas de aula, há grupos de trabalho e há também sessões individuais. Não é um grupo diferente numa escola convencional. É um grupo que é uma escola, porque nele se aprende. Enfim, fiquei com vontade de saber mais sobre o  ecohabitare. E também sobre a comunidade que se está a criar tão perto de mim.
A escola onde trabalho é conhecida na comunicação social por motivos habitualmente menos felizes. E contudo, é com orgulho que digo que trabalho no Cerco. Têm sido anos de desafios, de conquistas, de avanços e recuos, de turmas difíceis que me obrigaram a dar voltas à imaginação para conseguir chegar até eles, de alunos de uma generosidade imensa, de experiências inesquecíveis. De abraços, de lágrimas, de reclamações, de sermões, de cumplicidades, de olhares, de brincadeiras muito sérias. Ensinaram-me a ser como eles, "à cara podre", que é como quem diz, a dizer o que penso. Ensinaram-me que é possível florescer nas condições mais adversas. Que é possível resistir. Espero ter-lhes ensinado que é preciso não desistir de sonhar e de lutar pelos sonhos. E aproveitar o que cada dia nos dá. E lutarmos por sermos um bocadinho melhores todos os dias. Gostava que se lembrassem de mim como alguém que além de lhes ensinar um bocadinho do mundo, os ajudou a serem pessoas melhores.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Ensinar é abrir janelas, é mostrar caminhos, é ajudar nas escolhas sem as impor, é dar sentido, é tirar o tapete das certezas e incentivar a fazer diferente, é perder o medo de tentar, é recusar chavões, é por em causa, é ouvir muito, ouvir sobretudo com os olhos e com o coração. Ensinar não pode ser viver atravancado em programas que não acabam e tornam os professores em coelhos da Alice, sempre atrasados... Ensinar não devia estar nas mãos de professores que têm alunos preferidos (aqueles que tiram boas notas e prometem boas figuras- para eles? para os professores?- nos exames) e marginalizam os "outros" a quem brindam com epítetos que os fariam correr para a escola se os alvos desses mimos fossem os seus filhos. Ensinar só faz sentido se o que se ensina e o como se ensina fizerem sentido. E sobretudo, o para que é que se ensina? Ensinar exige humildade, exige coragem e exige foco no aprender. O aprender de quem aprende e o aprender de quem ensina. Foram nove meses muito intensos, de transformação profunda,  que finalmente começam a ganhar a forma e a traduzir-se em ideias concretas. Como se finalmente o turbilhão começasse a acalmar. Ou não...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Parabéns!

Hoje é o dia da minha Princesa, que há vinte anos, num dia cinzento, resolveu nascer, dez dias antes do previsto. Acho que estava tão farta de aulas que diante da perspetiva de um início do segundo período a levar com ecos históricos, deu o grito do Ipiranga e veio conhecer aqueles que durante nove meses só conhecia de ouvir falar-lhe. Começou a andar muito cedo, a falar cedo, a sonhar cedo com a independência. É muito sensível, solidária, e diante de situações complicadas consegue tomar o leme e levar o barco para a frente. Quando era pequena, e se magoava, franzia os lábios, engolia as lágrimas e seguia em frente. Não doeu, dizia. Mas doía. Ainda agora é assim. Quando a magoam, ela engole o choro, e finge que não sente nem sofre. E pensam que ela é o que não é. Há coisas que as mães sabem, que os filhos nem sonham. É a minha, de seu nome "a que faz alguém feliz", a quem desejo sucessos, conquistas, projetos, sonhos, amores, alegrias e muita sorte. Parabéns! Nascemos, mãe e filha, a dois de janeiro. Já lá vão duas décadas...

domingo, 23 de outubro de 2016

Falamos de escravatura como uma coisa do passado ou de outras latitudes. Criticamos os que escravizavam, os que submetiam, os homens que compravam outros homens, achando que a cor da pele determinava a humanidade de cada um. Falamos da escravatura como sinal abjecto de uma civilização inferior.
Depois, decidimos vidas alheias como se fossem nossas. Podemos condenar os outros ao que não querem, mesmo que pensemos que é para o seu bem? Sujeitar à nossa vontade? Escravo é o que não é livre, ou o que não pode usufruir da sua liberdade, mesmo que a tenha? Escravo porque explorado, porque sobrecarregado, porque sugado até ao último sorriso, à última vontade, à derradeira esperança. Escravo porque desrespeitado na sua maneira de ser. Escravo porque apoucado por quem lhe diz que não se apouque. Escravo porque revoltado diante de outros escravos que se desfazem em sorrisos falsos. Escravo porque é a vida, escravo do trabalho, das modas, dos juízos alheios, dos medos, escravo dos outros e de si próprio.
É tão ténue a linha entre o ser e o sentir. E se me sinto escravo, é escravo que sou, mesmo que a lei e os outros achem que não.

domingo, 16 de outubro de 2016

Chegar ao balcão e ter uma feijoada para degustar, ainda antes de ver a ementa. "Se soubesse que vinha, tinha feito rabanadas"diz o anfitrião, de sorriso sincero e acolhedor. Uma ementa cantada, onde os sabores tentam o palato. Cada qual pede a seu gosto. Delicio-me com migas de feijão frade com grelos e filetes de pescada, provo panados e bacalhau com natas...Ainda me aparece um bocadinho de vitela assada, muito tenra, para provar. Recomeçam as tentações. Pudim de chocolate com baba de camelo, bolo de chocolate com cerveja, bolo de bolacha e Pudim Abade de Priscos. Prova daqui e dali, tudo aprova com distinção. Cozinhar é uma arte, saber receber também, e quando ambos se conjugam sentimo-nos em casa de amigos. Mesmo ao balcão... 
Os portugueses preferem perder o seu  tempo a rir de quem canta mal a ganhá-lo ouvindo quem canta bem. É assim que  vejo o mais recente sucesso de uma Maria pouco leal à afinação...

domingo, 7 de agosto de 2016

Férias

Dizem que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Eu fui feliz, ao longo de vários anos, aqui. Há sete ou oito anos que o local de férias tem sido outro, quis o destino que este ano (em que nem sequer contava poder ter férias a cinco) passássemos uma semana aqui. Noutro apartamento, é certo. Mas com vista para a piscina onde a S. aprendeu a nadar, onde as duas deixaram as braçadeiras para poderem mergulhar à vontade com o pai, onde fizeram amigos... À noite, as crianças continuam a brincar às escondidas como antigamente, e ao ouvi-las lembro-me das minhas recomendações do costume: não andem a tocar às campainhas, fiquem sempre juntas, não façam muito barulho. Sabendo que das três, escaparia uma- a de andarem juntas. Como era natural. Na piscina, há rostos que se mantém, misturados com caras novas-como sempre foi. De resto, desapareceu o supermercado da altura (alisuper?), substituído por outros com nomes estrangeiros. As figueiras do caminho continuam generosas. E a paz que invade este local é surpreendente, tendo em conta que a menos de um quilómetro é a confusão total. Claro que devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Por que não?